No último dia 6 de janeiro, data em que é celebrado o Dia de Reis, aconteceu a primeira atividade da Caravana Contra os Racismos Religiosos em 2026. Neste dia, a equipe do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) participou da cerimônia de corte da romã, no Ile Axé Ayaba Omi, também conhecido como Terreiro das Salinas, em São José da Coroa Grande (PE). Na ocasião, estavam representando o PACS a coordenadora institucional e integrante da coletiva de gestão, Aline Lima, e a assessora político-pedagógica, Thais Matos. A atividade também contou com a participação de mãe Flavia de Ossain, do Terreiro Casa d’Água, do Rio de Janeiro (RJ), que também integra a Caravana.


Na tradição do Candomblé Jeje Nagô e da Jurema, o corte da romã abre o calendário litúrgico e tem o sentido de atrair prosperidade e fartura. O babalorixá do Terreiro das Salinas, Pai Lívio de Oxum, conta que, no passado, a fruta era rara e, por isso, era entregue aos reis como um presente. No terreiro, a romã é oferecida ao orixá Xangô, grande e generoso rei de Oyó e patrono da casa.
O terreiro faz o ritual no Dia de Reis, por causa da forte relação que tem com a Jurema Sagrada, religião muito presente no Nordeste do Brasil, principalmente na Paraíba e em Pernambuco, que é baseada nos saberes indígenas e na devoção ao panteão de mestres e mestras juremeiros e aos santos católicos.
Antes do ritual, houve um momento de conhecer o terreiro, dos quartos de santo ao congá da Jurema. Em seguida, foi realizada uma roda de conversa sobre o papel das comunidades de matriz africana no combate aos fundamentalismos, especialmente diante do agravamento do racismo religioso.
A comunidade lembrou do episódio do incêndio criminoso que destruiu o terreiro no dia 1º de janeiro de 2022 e ressaltou que, hoje, quatro anos depois, valorizam a capacidade de resiliência, união e articulação política que tiveram após esse episódio criminoso. A aproximação do terreiro com o PACS se dá justamente nesse momento. A primeira vez que a equipe do PACS visitou o Terreiro das Salinas foi em 2023, durante a gravação do documentário “Territórios de Fé: Resistências aos Fundamentalismos”.
Para a coordenadora do PACS, Aline Lima, “a grandiosidade da resistência do Terreiro das Salinas está na força da sua gente, desse e de outros mundos. Sabedoria ancestral que passa de um ori para o outro, de um coração para o outro e desagua na prática viva e pulsante de encontrar formas de vida no meio de um sistema que só faz matar o nosso povo”.
“O Terreiro de Salinas é uma máscara de oxigênio e uma bússola para os movimentos religiosos de resistência a esse modelo perverso e fundamentalista, sendo afro-religiosos ou não”, afirma Aline.
O PACS e a Caravana iniciam esse ano desafiador firmando mais uma vez o compromisso com o fortalecimento de experiências territoriais que enfrentam a violência da classe, raça e gênero – reafirmando também a importância de reconhecer os povos de terreiro como comunidades tradicionais, de ampliar seu acesso a direitos e de tecer redes de compartilhamento de experiências de luta e resistência.
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As fotos usadas nessa notícia são do acervo pessoal de Thais Matos.