Instituto PACS lança livro que sistematiza 10 anos de trabalho com autogestão em territórios de sete estados do Brasil

Nesta quarta-feira (10), o Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS) lança o livro “Onde moram nossas lutas: 10 anos de metodologias autogestionárias nos territórios”, que sistematiza práticas e metodologias desenvolvidas ao longo de uma década de trabalho.

Em 2015, o PACS realizou a primeira edição do Curso Autogestão, evento que foi um marco. De lá para cá, o Processo Formativo do Autogestão já possibilitou a criação e o fortalecimento de diversas outras iniciativas – dentre elas, o Plano Popular Alternativo ao Desenvolvimento (PPAD) e o Coletivo Autogestão, que reúne movimentos sociais, organizações, coletivos, redes e articulações com atuação nacional e territorial, presentes em sete estados do Brasil – Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Maranhão e Pará.

Hoje, o Instituto PACS celebra essa jornada, lançando um livro que resgata memórias, histórias, práticas e metodologias, reunindo desafios, aprendizados e conquistas dos últimos dez anos, com o objetivo de celebrar e inspirar iniciativas autogestionárias e contribuir para fortalecer caminhos coletivos de enfrentamento às desigualdades, desde os territórios.

Os textos são de Aline Lima, Joviano Maia Mayer, Mayã Martins Correia, Yane Mendes  e Yasmin Bitencourt, com edição e assessoria em sistematização de Luciana Pinto, da Reinvento - Criatividade em Gestão Social, e ilustrações de Camila Schindler. O livro é uma realização do Instituto PACS, em parceria com a Rede Tumulto e com o apoio de DKA Áustria, Brot für die Welt, Fundação Rosa Luxemburgo e Fundação Ford.

Baixe-o gratuitamente na Biblioteca Berta Cáceres ou na biblioteca do Plano Popular Alternativo ao Desenvolvimento (PPAD).

Banner do livro Autogestão

A publicação está dividida em quatro capítulos. No primeiro, intitulado “Autogestão e território”, Aline Lima, Mayã Martins e Yasmin Bitencourt explicam que “ao longo dos últimos 10 anos, o Processo Formativo do Autogestão consolidou-se como um percurso de formação política, trocas de experiências e fortalecimento coletivo de práticas autogestionárias em diversos territórios” e que, desde a primeira edição do curso, em 2015, até as mobilizações mais recentes, por exemplo da Caravana Contra os Racismos Religiosos, em 2024, “o processo manteve coerência em seus princípios e metodologias, ao mesmo tempo em que se adaptou às realidades e desafios históricos de cada período”.

Neste capítulo, as autoras traçam um histórico sobre as discussões relacionadas ao tema no PACS e no Coletivo Autogestão, refletindo sobre conceitos e práticas fundamentais e relacionando o Processo Formativo do Autogestão à conjuntura política da década.

No segundo capítulo, “Quem são os sujeitos da Autogestão?”, as mesmas autoras apresentam o Coletivo Autogestão e as coletividades que o compõem, além do PPAD, iniciativa que surge junto ao Processo Formativo do Autogestão e “propõe a construção de um plano para questionar o modelo de desenvolvimento capitalista a partir dos saberes e práticas populares, com o enraizamento territorializado e a autonomia coletiva como horizonte”.

No terceiro capítulo, “Metodologia autogestionária”, também escrito por Aline, Mayã e Yasmin, conhecemos os principais temas trabalhados no Processo Formativo do Autogestão, além de estratégias de mobilização e resistência, com exemplos práticos e inspiradores.

No último capítulo do livro, “Tarefa-amor: palavras vivas dos territórios em luta”, Yane Mendes e Joviana Maia Mayer propõem uma reflexão sobre os aprendizados, tensões e potências identificados ao longo do processo, evidenciando a força contra colonial da autogestão e reafirmando a urgência de práticas que valorizem os saberes locais e a construção coletiva.

O que é autogestão?

Para o PACS, a autogestão consiste em uma metodologia de ação política e social que fomenta e promove autonomia nos territórios. Mais do que um conceito, a autogestão é um instrumento político que busca transformar relações de produção, cuidado e gestão em espaços coletivos e horizontais. Articula-se com perspectivas como o bem viver e o feminismo comunitário, inspiradas nas cosmovisões dos povos indígenas latino-americanos e africanos.

A autogestão é muito mais do que uma forma de organização social e a sua compreensão pode ser diversal, como ensina Nêgo Bispo, liderança quilombola e pensador contra colonial que ancestralizou, mas segue inspirando o Processo Formativo do Autogestão.

Para ele, o pensamento diversal é uma forma de pensar oposta ao pensamento universal, pois afirma que não existe um único modo de viver e de se organizar socialmente, reconhecendo a pluralidade de mundos, saberes e modos de existência. Esse pensamento valoriza a autonomia dos povos e defende o direito à diferença, sob a forma da coexistência e da reciprocidade, em oposição à hierarquia.

O Instituto PACS lança o livro “Onde moram nossas lutas: 10 anos de metodologias autogestionárias nos territórios” neste dia 10 de dezembro, quando Nêgo Bispo completaria 66 anos, também em sua homenagem, reforçando a centralidade dos saberes ancestrais e da experiência enraizada nos territórios na construção das metodologias autogestionárias e na busca por um mundo mais justo, em que as relações sejam fundamentadas na solidariedade, na autonomia e no respeito às diversidades. Seus ensinamentos estão presentes em cada página desse livro.